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[Resenha] O monstro de batina

Nota do resenhista: [rating=5]

Duas irmãs gêmeas, mas opostas fisicamente, compartilham entre si um mesmo sentimento: a dor. Contudo, a vida de privações e segredos não poderia ficar para sempre impregnada nas paredes manchadas da Casa Paroquial. Pena que alguém precisou morrer para tudo vir à tona. Enfim a justiça seria feita, não importava o preço. Todos tinham que saber a verdade, por mais chocante que ela fosse.


   Tempo: Para ler de um tiro só no final de semana.


   Finalidade: Para mergulhar fundo na história e viver fortes emoções.


   Restrição: Para quem não gosta de histórias tristes.


   Princípios ativos: Violência doméstica, violência sexual, preconceito.


Corações Feridos, de Louisa Reid

Rebecca e Hephzibah são irmãs gêmeas, algo que não é perceptível aos olhos. Ambas dificilmente já passaram despercebidas na rua ou em qualquer outro lugar, pois são completamente diferentes. Uma tem síndrome de Treacher Collins e chama atenção pela aparência estranha, dentes tortos, corpo infantil. A outra pela beleza, cabelos bonitos, corpo desenvolvido. Além disso, enquanto uma é obediente e tímida, a outra alimenta um desejo de liberdade, vingança e rebeldia.

Contudo, se há alguma coisa que jamais pertenceu as duas foi uma vida comum. Nascidas e criadas na Casa Paroquial, onde seu pai Roderick é pastor, elas tiveram uma educação no mínimo rígida. Privadas de ir à escola, ao parque, brincar, ler, fazer amizades e até mesmo passar um tempo com a Vovó, elas sempre conviveram num ambiente tenso, porém mascarado pela religião, os bons costumes e a vida simples.

“Afinal, um homem de batina era mais sagrado que a lei. Sua palavra era divina.”

Talvez tudo tivesse sido mais simples se a Vovó estivesse viva, se Ele não tivesse provocado sua morte com seus inúmeros ataques de fúria por coisas banais. Reb e Hephz encontravam na avó a dose de infância que nunca tiveram, e era isso que deixava seu pai enfurecido. A morte da Vovó deixou as coisas ainda mais difíceis.

“Nós nos divertíamos com a Vovó até nossos pais descobrirem isso.”

Graças a alguns conhecidos da família, e mesmo contra vontade dos pais, Rebecca e Hephzibah conseguiram a chance de ir para escola no ensino médio. Um fio de esperança surgiu, a oportunidade de tentar ter uma vida normal, conhecer o mundo além das paredes úmidas da igreja. Mas, a liberdade não chegou tão fácil quanto elas pensavam. Hephz, muito bonita e esperta, logo chamou atenção dos garotos, conheceu algumas amigas e ganhou certa popularidade, começou a ir festas e a namorar Craig. Tudo isso, é claro, à custa de Rebecca, que abria a porta quando ela chegava tarde da noite, inventava mentiras para seus atrasos e fazia suas tarefas. Afinal, a irmã feia e desengonçada sempre fora um obstáculo na sua vida e na dos pais, por isso levava mais tapas e insultos.

Reb sofria tudo calada, sem derramar uma lágrima diante das pessoas, até mesmo defendia a irmã das agressões e assédios do pai. Afinal, como ela iria fugir sozinha daquela vida de injustiças e violência? Mesmo sentindo sua irmã se distanciar a cada dia, a morte não foi o fim que ela desejou para Hephz. Ao contrário de Roderick e da mãe, ela não derramou lágrimas de crocodilo no velório, não a abandonou nos momentos difíceis e nem inventou mentiras para a causa de sua morte, apenas omitiu na tentativa de esquecer, assim como a parte negra da sua vida.

“(…) me perguntava se ela, de dentro do caixão de madeira, conseguia ouvir o que estava acontecendo e se também se sentia sozinha e com frio. Ela enfim saberia, pela primeira vez, o que significava ser deixada de lado.”

Sem ninguém para compartilhar suas angústias e dividir seu sofrimento, os segredos da família precisariam ser revelados em algum momento. Estavam pesados demais. Hephzibah tinha que se libertar e os bebês choravam.

“Mas não se pode esconder veneno para sempre, ele tem de escoar para fora em algum momento, e eu podia sentir o cheiro no ar.”

“Corações Feridos” foi o livro com a temática mais pesada que já li. A capa e a sinopse já deixam isso bem claro. Mas acredite, suas páginas guardam histórias muito mais tristes e revoltantes. Foi nesse livro que eu encontrei a resposta para a seguinte pergunta: qual a utilidade de um livro de ficção? Leia “Corações Feridos”, eu diria. Assuntos como preconceito, violência doméstica, sexual, relacionamento entre pais e filhos e religião são tratados nesse livro e te fazem viver a história de modo a embarcar no turbilhão de emoções das personagens.

A organização também é um elemento importante. O livro é dividido em duas partes, na primeira, os capítulos são alternados entre a vida de Hephzibah antes de morrer e a situação de Rebecca após a morte da sua irmã. A segunda e última parte é narrada somente por Reb, tentando superar seus limites e se libertar da prisão criada por seus pais. Ainda há um toque de romantismo, mas não aquele amor barato, e sim o amor verdadeiro. Enfim, sem dúvidas, eu recomendo.

“A vida pode recomeçar se você tiver sorte o suficiente, e eu decidi ter sorte.”

Resenhado por [Rafael Duarte]

253 páginas, Editora Novo Conceito, publicado em 2013.
*Título Original: Black heart blue.

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