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[Resenha] Quando o mundo desiste da humanidade, é preciso mudar.

Nota do resenhista[rating=3]
Nascer com habilidades estranhas a ponto de ser temida e odiada pelos seus próprios pais. Ser trancada em um manicômio sem ser louca e ser esquecida por quase 3 anos longe de qualquer interação social podem tirar a sanidade de qualquer pessoa. Mas se você passou por tudo isso, talvez não enlouqueça. Como disse, isso enlouquece as pessoas…

 

 


   Tempo: 5 dias.

   Finalidade: Passar o tempo.

   Restrição: Qualquer um que não seja fanático por distopias românticas.

   Princípios ativos: Loucura, Medo, Distopia, Romance, Mutação.



Estilhaça-me, de Tahereh Mafi.

Olá pessoas!
Hoje eu vou falar de uma distopia. Estilhaça-me de Tahereh Mafi abre uma trilogia curiosa publicada no Brasil pela Novo Conceito. É curioso porque tecnicamente é uma distopia, mas na prática é um romance ambientado na mente da personagem Juliette.
A menina de 17 anos começa o livro trancada em um manicômio, questionando quem será seu novo companheiro de cela. Em um futuro em que o meio ambiente foi destrutivamente alterado e os seres humanos se adaptaram como podiam, um movimento chamado Restabelecimento surgiu prometendo a cura do planeta. Pouco antes do Restabelecimento dominar tudo, Juliette provoca um acidente que causa seu total isolamento compulsório. Sempre rejeitada por seus pais, Juliette possui uma desagradável habilidade ao ser tocada. E agora um estranho garoto foi aprisionado em seu quarto com ela no manicômio.

“Ele olha para minha cama. Olha para sua cama.
Junta as duas com uma mão. Usa o pé para empurrar as duas armações de metal para seu lado do quarto. Estende-se sobre os dois colchões, tomando meu travesseiro para amortecer seu pescoço. Comecei a tremer.”

A narrativa é de foco emocional. As frases são repetidas sem pontuação para enfatizar os sentimentos dela. E são riscadas pra mostrar as inseguranças e desejos íntimos não assumidos da menina. A distopia aparece como pano de fundo quando ela e Adam – seu colega de cela – são levados ao responsável militar da área. Warner pretende usá-la como arma. Tenta convencê-la de que vai adorar torturar as pessoas, pois em sua natureza ela é um monstro. Fugir de seus captores passa a ser seu principal objetivo. Se Adam vai ajudá-la ou não é uma angústia que o leitor vai desvendando aos poucos.
A história, apesar dos furos, é bem estruturada. Como ela é narrada pela personagem, o leitor sai do isolamento junto com ela direto para um mundo ecologicamente destruído e militarmente dominado. As metáforas utilizadas são bem aplicadas, no intuito de representar o exagero de quem viveu a vida sem sentir coisas. A maior parte das descrições envolve sensações táteis que a personagem nunca experimentou até então. Estilhaça-me é um titulo perfeito porque remete a sensação de Juliette de estar sendo destroçada pelas circunstancias ao seu redor.

“- Juliette.Uma palavra suave e minhas articulações são feitas de ar.
Não lhe respondo”

A eterna dúvida desnecessária das adolescentes. Isso marca o livro em diversos pontos e o simbolismo de algumas cenas chega a ser engraçado pela dramaticidade. Mas é tudo coerente com a personagem e suas limitações fisiológicas.
Minha crítica principal é o modismo da distopia. É secundário e quase não se percebe. É muito geograficamente pontual e poderia ser substituído facilmente pelo mesmo enredo usando uma agencia secreta de algum governo. Mas não nego que gostei do livro.
Não recomendo que homens leiam. Os pensamentos emotivos dela são bastante femininos e coerentes com uma menina de 17 anos que viveu isolada, sem nunca poder tocar outra pessoa sem tecido entre eles. As dúvidas dela são consistentes com alguém que quer ser tocada. Que quer conhecer o mundo. Que quer viver. E esse desespero é contagiante, nem sempre em seus aspectos positivos.
Em seu esforço por fugir de seus captores durante todo o livro, o final me deixou com um gosto meio amargo na boca, mas é uma leitura agradável pra matar o tempo. Então, boa leitura.
Resenhado por Leandro Borges.

302 páginas, Editora Novo Conceito, publicado em ano 2012.
*Título Original: Shatter me.

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