Depois de mais de três anos de expectativa, finalmente a continuação de Percy Jackson chega às telonas. O segundo filme da franquia que permaneceu por muito tempo na incerteza de ser produzido diante da distância – e parca aceitação dos fãs – que o primeiro teve da obra original de Rick Riordan, vem à superficie mostrando que, se o começo não foi tão próspero assim, a sequência pode contornar o problema ao se destacar como uma adaptação bem mais fiel e salvar a série em sua versão cinematográfica.

Brunna Cassales, representando o Clube do Livro – Potterish, conferiu no último dia 7 o tão aguardado Percy Jackson e o Mar de Monstros (EUA, 2013), que estreia no circuito nacional nesse 16 de Agosto, e traz para você sua opinião sobre o filme. Leia a resenha e se segure, pois o Triângu… quero dizer, o Mar de Monstros o espera!

“Percy Jackson e o Mar de Monstros”,
dirigido por Thor Freudenthal

Duração: 106 minutos.
Finalidade: para ficar na ponta da poltrona.
Restrição: para quem não gosta de referências mitológicas.
Princípios ativos: Mitologia Grega, Aventura, Monstros, Heroísmo, Destino.

Há uma razão para o Acampamento Meio-Sangue ser o lugar mais seguro do mundo para semideuses, e ela se chama Thalia. A jovem filha de Zeus ficou para trás ao ajudar os amigos Luke, Grover e Annabeth em um ataque de ciclopes e foi morta ao salvá-los, mas teve seu sacrifício reconhecido pelo pai, sendo transformada em um pinheiro plantado nos limites do Acampamento. Agora o pinheiro de Thalia, essa fronteira mágica que protege o Acompamento Meio-Sangue, foi envenenado. A única solução para impedir que monstros destruam o lar dos semideuses é ir em busca do lendário Velocino de Ouro, artefato capaz de regenerar sua energia vital.

image

A missão é dada a Clarisse La Rue, uma filha de Ares introduzida só então na franquia, mas velha conhecida de quem acompanha os livros. Clarisse é o alter ego das garotas valentonas, é durona, truculenta e adora infernizar a vida de Percy. Houve muita polêmica sobre como seria a atuação da personagem por Leven Rambin (a Glimmer de Jogos Vorazes). Mas Leven não deixa a desejar, pois o que vemos na grande tela é uma Clarisse decidida, com personalidade forte, que expõe as fraquezas de Percy e ainda consegue ser cômica com suas falas desconcertantes.

É claro que nossos heróis não ficariam de braços cruzados esperando Clarisse procurar o Velocino no Mar de Monstros – também conhecido como Triângulo das Bermudas. O Oráculo revela a Percy (Logan Lerman) a Grande Profecia, e ele resolve que também precisa partir na empreitada. Mas Percy nunca está sozinho. É aí que entram seus companheiros de aventura: os melhores amigos Annabeth (Alexandra Daddario), a estrategista, e Grover (Brandon T. Jackson), o sátiro, além de Tyson (Douglas Smith), o meio-irmão ciclope que Percy acabou de descobrir.

A aparição de Tyson é abrupta, diferente do livro, e é explicada pela intervenção do próprio Poseidon, já que Tyson diz que o pai simplesmente o guiou até Percy, seu irmão semideus. É interessante notar que o estranhamento de Percy pelo irmão vai se dissolvendo aos poucos, e que até Annabeth, no início relutante em aceitar a companhia do ciclope, chega a um momento em que tem motivos para reconhecer seu valor. Dois aspectos de que gostei muito é que a ingenuidade desproporcional ao tamanho de Tyson foi mantida e que Annabeth finalmente está loira como nos livros.

Um detalhe desses pode paracer mínimo, mas Annabeth é uma personagem que quebra com bastante impacto o estereótipo de que loiras não são conhecidas por sua inteligência, afinal, ela é uma filha de Atena. Detalhes como este mostram a força de uma personagem, por isso não devem ser subestimados.

Aliás, outra coisa que mudou em relação ao primeiro filme foi deixarem de colocar Percy e Annabeth como se estivessem à beira de se tornarem um casal o tempo todo. Estou feliz com isto mesmo sendo a favor do relacionamento amoroso dos personagens, a questão é que ainda não está na hora. O primeiro filme já os alçou no ar com uma tensão constante, precipitando o romance.

Este filme procurou explorar mais toda a amizade que se constituiu antes dos protagonistas estarem prontos para admitir seus sentimentos. Os toques de romance são leves, como devem ser nesta parte da história, e há um momento em que chegam a emocionar.

Conseguir atrelar o que já estava predeterminado pelo primeiro longa com o retorno aos livros na tentativa de fazer uma adaptação mais fiel não é uma tarefa fácil. Thor Freudenthal contou com pequenas sugestões do diretor do filme anterior, Chris Columbus, e encontrou nos originais de Rick Riordan a leveza e o senso de humor que dão consistência ao ritmo certo para a jornada de Percy.

É notável que o tom dos livros foi capturado dessa vez; podem até surgir antecipações do enredo aqui e ali, o importante é que nenhum acréscimo fora de contexto foi feito, houve cuidado para dar coerência à história. Uma mudança no elenco, que é válido ressaltar, consiste na substituição de Pierce Brosnan por Anthony Head como Quíron, o centauro. Agora podemos enxergar o personagem por um novo olhar sem comprometê-lo, embora o único saudosismo em relação ao filme anterior seja justamente pelo primeiro ator.

image

Algumas presenças louváveis em O Mar de Monstros são as dos deuses olimpianos Dionísio (Stanley Tucci) – sim, que os fãs comemorem, o Sr. D está na área! –, o diretor do Acampamento Meio-Sangue, e Hermes (Natan Fillion), que se apresenta como um homem de negócios. Ambos merecem destaque pela maneira ao mesmo tempo consistente e hilariante com que seus respectivos personagens se encaixam na trama. Outros dignos de palmas são Luke (Jake Abel) e Grover (Brandon T. Jackson). Luke é o típico vilão que se deixou corromper pelo desejo de se provar; um filho de Hermes que trai as origens, obstinado em trazer à vida Cronos, o rei dos titãs, para liquidar os deuses do Olimpo; mais um que se lança na procura pelo Velocino, cujo poder é capaz de realizar seus planos maléficos. Não há como não se deixar envolver pela complexidade sombria de Luke.

Assim como não se pode negar que a interpretação de Brandon como Grover proporciona boas gargalhadas. Seu momento se passando por noiva de Polifemo, o ciclope mau com problemas de visão, é realmente brilhante e compensa quaisquer diferenças adaptativas da cena correspondente no livro.

É nítido que a narrativa está mais madura. Dá enfoque aos dilemas existenciais de Percy, gravidade aos seus conflitos, tudo sem perder a carga de ironia que pontua a série Percy Jackson. Algo absolutamente necessário para ilustrar um adolescente em formação, ainda mais se tratando de um herói em busca da própria identidade. A Jornada do Herói, estrutura literária estabelecida como padrão para contar histórias, é a base mítica que não escapa aos olhos de um bom observador na saga de Percy, que ao ser mostrada de forma fidedigna a como foi originalmente concebida traz alívio para qualquer fã, bem como possibilita melhor compreensão para quem não conhecia a trama antes.

A expectativa do diretor pela aceitação dos fãs é tamanha que deixa bem claro a não negligência aos detalhes. O estúdio Fox decidiu aprimorar os efeitos e lançar o filme também em 3D para fazer bom aproveitamento da preocupação com espaços e profundidades, característica de Freudenthal. Tendo experiência como ilustrador de quadrinhos e animador, além de ter integrado equipes de efeitos visuais antes de ser diretor, ele sabe mesmo se comunicar através de uma imagem. Em Diário de um Banana (adaptação de 2010 da aclamada obra de Jeff Kinney), já havia mostrado que dar vida às páginas de um livro era uma especialidade. Com O Mar de Monstros, provou que dando a devida atenção e sem exagerar nos efeitos, é possível fazer jus às origens e ainda trazer à tona um bom filme por si só. Agora o destino de Percy Jackson nos cinemas anseia por acontecer.

Uma aventura que segue eletrizante até o fim, num único fôlego, com uma trilha sonora que se adequa  a seu dinamismo de forma épica. Fica no rosto do expectador – estando ali à cárater de camisa laranja ou só por curiosidade – um sorriso de pura satisfação. Não espere poucas surpresas. Mais do que entretenimento, este filme causa a sede por mais. Uma vez provado o néctar dos deuses – e, é claro, dos semideuses –, o que se quer é o próximo gole, o próximo fôlego. E um ponto de partida tão bom como Thalia, a filha de Zeus.