A Feira de Frankfurt é um dos eventos mais importantes do mercado literário. Leitores, escritores e editoras do mundo todo voltam sua atenção para o evento. Este ano, o Brasil tem um lugar de honra na Feira, mas nosso escritor mais lido internacionalmente, Paulo Coelho, recusou o convite do Ministério da Cultura para formar parte da delegação dos escritores brasileiros. O autor best-seller publicou em seu blog a entrevista que concedeu a Martin Scholz do Welt am Sonntag. Paulo Coelho faz duras críticas à política de seleção do MinC,  reflete sobre a situação política e social do país e fala da importância da internet para a sua carreira. Confira aqui a transcrição de parte da matéria a ser publicada na Alemanha:

WELT AM SONNTAG: Na próxima semana, a maior feira literária do mundo abre suas portas em Frankfurt. O Brasil é o país de honra, mas você que é o autor brasileiro de maior sucesso não participará. Por que recusou o convite do Ministério da Cultura?
PAULO COELHO: Estou em constante contato com jovens escritores do meu país. Mas quando o governo chega para apresentar oficialmente a cultura brasileira em outros lugares, infelizmente esses são ignorados e a políticagem interna acaba predominando. O Ministério da Cultura do Brasil convidou 70 pessoas para irem à Frankfurt…
WaS: 70 escritores.
PC: Eu duvido que sejam todos escritores profissionais. Dos 70 escritores convidados (LISTA AQUI) , eu conheço apenas 20, então os outros 50 nunca ouvi falar. Presumo que sejam amigos de amigos de amigos. Nepotismo. O que me incomoda mais: EXISTE uma nova e excitante cena literária brasileira. Mas a maioria desses jovens autores não está nessa lista.
WaS: Por que você não exerceu sua influência como membro da Academia?
PC: Falei publicamente e conversei com muitos colegas escritores que não foram convidados para Frankfurt como Eduardo Spohr, Carolina Munhóz, Thalita Rebouças, André Vianco, Felipe Neto e Raphael Draccon, só para mencionar alguns nomes. Eu tentei ao máximo levá-los para a feira, mas sem sucesso. Então, por protesto, eu DECIDI não ir mais para Frankfurt, o que foi uma decisão difícil por diversos motivos. Primeiro porque eu sempre quis ser convidado para um evento como este pelo meu governo, mas também porque tenho fortes laços com a Feira de Frankfurt, especialmente com seu diretor Jürgen Boos, que não só reconheceu o processo de transformação do impresso para o digital, como colocou o tópico até na programação da feira. Ele iniciou vários fóruns e painéis com o assunto. Outras feiras do mesmo molde, como a de Genebra e Paris estão deteriorando porque se prendem a antigos conceitos. Eu NÃO vou para Frankfurt mesmo com a alta estima que tenho por essa feira porque simplesmente não aprovo o modo que está sendo representada a literatura brasileira. Não quero posar de um Robin Hood brasileiro. Nem de Zorro ou Cavaleiro Solitário. Mas não pareceria certo ser parte da delegação oficial brasileira, do qual não conheço a maioria dos escritores e que exclui tantos outros.

WaS: Isso te deixa claramente chateado.
PC: Porque isso é apenas um dos diversos pontos críticos do atual cenário governamental brasileiro. Eu apoiei esse governo e estou muito decepcionado com isso. Existe uma lei que permite grandes empresas como a Volkswagen investirem parte de seus impostos em projetos culturais. Essa lei foi modificada de tal forma que a alta costura brasileira é sustentada por essas taxas – uma indústria que não precisava desse tipo de apoio de forma alguma. Esse é apenas um detalhe, mas é um exemplo do que acontece em larga escala. Para mim, o atual governo brasileiro é um desastre. Onde quer que eu vá, as pessoas sempre me perguntam o que está acontecendo de errado em meu país. O governo fez grandes promessas e não as manteve. Isso é o que está acontecendo de errado.
WaS: Recentemente centenas de milhares de pessoas em mais de 140 cidades protestaram contra a corrupção, má gestão e desigualdade social. O que passa pela sua mente quando vê todas essas imagens de tumultos nos noticiários?
PC: Estou muito preocupado, sobretudo porque não parece ter um fim breve. Tudo começou quando aumentaram as tarifas de ônibus. E quando, após a Copa das Confederações, um país louco por futebol como o Brasil admitiu publicamente que temos problemas mais urgentes que modernizar nossos estádios para o Campeonato Mundial – isso já foi uma grande declaração. No entanto, todo mundo foi pego de surpresa pelo escopo de raiva pública. Porque o Brasil tinha sido cotado como o novo país do momento. O problema é que uma grande parte da população não tem sido capaz de lucrar com esse momento. A violência no Rio de Janeiro é um grande problema. O governador prometeu encontrar uma solução, mas ele não manteve sua promessa. São Paulo não tem uma situação melhor. Não importa onde você olha, o demônio da corrupção está olhando de volta pra você. Em uma situação tão tensa, elevar as tarifas de ônibus parece ter sido a gota d’água para quebrar as costas do camelo. Pessoas respondem coisas desse tipo. Com a minha fundação apoio crianças carentes de favelas durante anos, sem nunca ter recebido apoio financeiro ou até mesmo uma palavra de reconhecimento por parte do governo. Eu me encontro em uma situação semelhante à de muitos colegas brasileiros. Eu votei no governo de esquerda, pelo qual tinha grandes esperanças. Estive cego por muito tempo, não querendo ver o que acontecia de errado. E eu me mantenho pela minha crítica.
WaS: Nestas circunstâncias, o que você espera do campeonato mundial no próximo ano? O ex-craque Ronaldinho mostrou pouca simpatia pelos manifestantes. Ele disse que campeonatos não eram sobre construções de hospitais ou ruas, mas sim de estádios.
PC: Essa foi uma observação muito estúpida. Ronaldinho deveria ter mantido sua boca fechada. Claro que hospitais, escolas e acima de tudo um bom sistema de transporte público são mais importantes para um país como o Brasil que estádios de futebol. O transporte público ainda é um grande problema no Brasil. A infraestrutura não é apenas ruim, mas uma decadência total. No entanto, não perdi por completo a esperança que antes da Copa vamos chegar aos nossos sentidos e usar os investimentos para o campeonato de uma forma que os brasileiros possam lucrar, mesmo após os jogos. Estou em dúvida, no entanto. Mas agora estou falando há um tempo sobre o Brasil e percebi que não pintei um quadro muito positivo do meu país.
WaS: Isso é ruim?
PC: Não, você pode manter isso. Especialmente porque já expresso parte dessa crítica no Facebook e no Twitter, embora em pequenos pedaços e não em um grande bloco como está sendo agora em nossa conversa. Essa é a grande coisa sobre redes sociais. Se eu tenho algo a dizer, digo. Não preciso dar longas entrevistas a jornalistas que predominantemente vão procurar fraquezas e argumentos falhos e focar neles diversas vezes. Hoje em dia, eu prefiro dividir os meus comentários imediatamente com os meus 8,5 milhões de seguidores no twitter, ou com meus 12 milhões de amigos no Facebook. Instantaneamente. Globalmente.
WaS: A revista Forbes declarou que você é a segunda personalidade mais influente no twitter depois de Justin Bieber. No Facebook você agora tem mais seguidores do que Madonna. Não se torna assustador ter este número crescente de devotos on-line esperando que você dê um significado a suas vidas?
PC: Nem um pouco. Eu gosto de participar de redes sociais porque é divertido e acho gratificante. Agora estou ligado aos meus leitores de todo o mundo de uma maneira que antes das redes sociais emergirem não era possível. Deixe-me dar-lhe um exemplo: sessões de autógrafos costumavam ser frustrante. 200 ou 300 pessoas ficavam muito felizes, porque conseguiam um autógrafo meu. Muitos outros ficavam irritados porque tinham esperado na fila e foram mandados para casa de mãos vazias, já que não posso assinar livros por oito horas a fio.

WaS: Mas para enviar mensagens no Twitter e no Facebook para seus fãs em todos os cantos do mundo, todos os dias, pode ser cansativo também, certo?
PC: Eu não preciso estar on-line todos os dias e não estou. Você não tem que escrever um livro a cada dia a fim de se considerar um escritor, não é? Eu uso o twitter e posto no Facebook quando quero.

WaS: Você tem vontade de salvar o mundo através das redes sociais?
PC: Eu não quero salvar o mundo, eu meramente construo algumas pontes. E atualmente não sou o único. O novo presidente iraniano abriu sua conta própria no Twitter (ou teve alguém para fazer isso por ele) e escreveu: “Feliz ano novo, meus amigos judeus”. Uma pequena mudança paradigmática, que não deve passar despercebida.
WaS: O que você diz a seus colegas escritores que consideram Blogs e Twitter uma perda de tempo?
PC: Francamente, eu não entendo a recusa. As redes sociais permitem que você experimente novas formas de escrita. Eu escrevo de uma forma diferente para um blog, um romance, tweet ou em um post no Facebook. Nas redes sociais, posso discutir temas que meus leitores ou eu consideramos importantes. Isso não significa que todos esses posts tenha que transformar em um livro. Mas através dessas redes posso chegar a uma comunidade gigantesca. Pessoas que não vão mais a muitas livrarias e são pouco interessadas em livros. Eles pensam que livros são chatos. Minha experiência é a seguinte: se eu publicar textos na internet, posso interessa-los em os meus livros. Não devemos demonizar essas novas formas de comunicação.
Também acho desconcertante quando os meus colegas escrevem: “a internet mata literatura” e em seguida publicam esses textos online. Eles escrevem na internet para reclamar da internet. Isso é como ser casado e só falar com sua esposa a fim de reclamar dela. Isso não funciona.

WaS: Você recentemente chocou o mundo editorial com um experimento altamente incomum. Em seu site incentiva usuários a baixar vários formatos e traduções de seus próprios livros. Gratuitamente. No entanto, as vendas de seus livros impressos continuam a aumentar apesar disso ou por causa desses downloads gratuitos, o que causa curiosidade entre a indústria editorial que está convenientemente ignorada. Por que ninguém lhe imitou ainda?
PC: Eu não tenho resposta para isso. Eu fico me repetindo: se você é um verdadeiro artista, então o seu principal objetivo é ser notado.
WaS: Na verdade, você já era um autor best-seller antes mesmo da chegada de downloads – que acabou sendo uma ferramenta de marketing interessante para impulsionar ainda mais suas vendas.
PC: Isso é o que eu continuo ouvindo: Paulo Coelho pode se dar ao luxo de permitir downloads gratuitos de seus livros, porque ele já é famoso. Eu sempre discordo: “eu sou quem eu sou hoje porque sempre tomo riscos e porque estou aberto a novas ideias”. Muitos colegas dizem: “eu não dou os meus livros gratuitamente na internet”. O que já mostra que eles não entendem o núcleo do mundo digital – que compartilhar termina somando ao invés de dividir. Não consigo explicar por que meus livros impressos vendem melhor hoje do que antes dos meus compartilhamentos, mas o que parece ser o caso é que a maioria dos leitores que baixa o primeiro livro de graça, depois sentem certa obrigação de comprar o livro impresso. Pelo menos os jovens escritores não parecem pessimistas com as redes sociais. Muitos jovens escritores brasileiros abraçam essas oportunidades. Para eles sou um pouco de modelo. Eles até inventaram um bom apelido para mim: me chamam de Mago dos Nerds.
WaS : Isso é um elogio?
PC: Eu acredito realmente que sim.

Referência: Blog Oficial do Paulo Coelho