Há coisas que só mesmo quem pratica consegue compreender: a leitura, sem dúvida, é uma dessas coisas. E os leitores que têm a oportunidade de conviver com outros leitores sabem disso, assim como os que leem sem ter com quem compartilhar sua experiência gostariam de descobrir.

Na coluna “Entre Nós” de hoje, eu parto em busca da essência que faz os leitores assíduos se apaixonarem pelos livros e ler com cada vez mais voracidade, e procuro uma resposta para o porquê de só quem lê conseguir entender essa questão. Leia meu texto e dê sua opinião sobre esse dilema literário nos comentários!

Eu poderia muito bem começar esta coluna apostando em máximas como “leitor é tudo igual” ou “existem determinados tipos de leitor”, mas é claro que deveria escolher uma dessas, certo? Porque se no geral, todos os leitores são iguais, não existem tipos específicos de leitor que diferem entre si, não é? Não, por  mais controverso que possa parecer, as duas afirmações estão corretas, ao meu ver.

A verdade é que cada leitor, assim como cada indivíduo, possui peculiaridades específicas ligadas a sua personalidade. Por exemplo, é fato que a maioria dos leitores frequentes adora sentir o cheiro que os livros exalam; no entanto, enquanto uns preferem o aroma das páginas amareladas de um velho exemplar de um sebo qualquer, outros gostam mesmo é do cheirinho levemente adocicado de baunilha proveniente de uma obra recém-impressa. Ainda assim, sempre haverá um grupo que prefere um tipo de cheiro e outro, um tipo diferente. Em cada grupo, a partir dessa semelhança poder-se-ia encontrar muitas outras. Mas, no final, o grupo que prefere um tipo de cheiro poderia perfeitamente se juntar ao outro, já que o que todos gostam mesmo é CHEIRO DE LIVRO!

Isso nos leva a pensar que algumas coisas podem não ser exatamente as mesmas, embora deem no mesmo. Nem sempre, meu amigo, nem sempre…

Imagine a seguinte situação: você acabou de fazer uma prova, então, cansado de ficar conferindo as respostas, pega aquele livro que vem te fazendo perder o fôlego, e se posta a devorá-lo. Aí um colega seu (que não costuma ler por prazer) chega perto, intrigado, e pergunta porque está tão concentrado e alheio ao resto do mundo.

– Porque o livro é bom demais e eu PRECISO chegar logo ao final para saber o que acontece! – você responde com ansiedade nítida

– Ahhh, saquei, é como acontece com as provas, a gente quer logo é que acabe… – o fulano comenta

– O que? Não, é diferente…

Ora, claro que é. Apesar de você reconhecer que o conflito de sentimentos faz sentido – já que 1) você quer que acabe logo para saber o resultado e dar fim a tensão e, ao mesmo tempo, 2) você quer ter tempo para processar as informações, refletir, saber se está certo – insiste na ideia de que essa experiência conflitante, ao vir à tona através de um livro, é diferente… E o motivo é simples: com a leitura, a coisa só não é a mesma porque é mais intensa.

Nem sempre no quesito mais carregada de emoções suas; às vezes, a expectativa para uma prova é tamanha que a tensão emocional chega a ser maior que a de uma determinada leitura (como no vestibular). Tudo depende: o grau de confiança para uma coisa, o nível de arrebatamento literário para a outra. O que eu quero dizer, nesse caso, ao afirmar que a intensidade é maior, é que o número de emoções envolvidas supera sua quantidade de emoções particular. Afinal, há as emoções dos personagens. A intensidade dos sentimentos deles através dos seus é que aumenta a amplitude da coisa.

Por isso é tão difícil de explicar. Vai além do nosso limite sensitivo: primeiro, os personagens sentem, então a sensação passa, como por mágica, para você, tornando todo o conflito emocional mais intenso. Não é só uma preocupação individual, é algo que já fez muitos outros – de tinta e papel ou não – “perderem o sono”, por assim dizer. Pode ser uma coisa menor se comparada a sua realidade, ou tão maior e com consequências tão piores que te faz sentir um pontinho minúsculo no universo. O que importa é que já transcendeu tantas mentes – de autor para personagem, de um personagem para outro, e outro, até os leitores, entre eles, até você – que tudo ficou mais denso, praticamente adquirindo vida própria.

É nesse momento, quando a trama está tão carregada de  tensão, que nos preparamos para o grande ápice. Então, quando ele chega, o peso cai, você desperta; o encanto acontece. O arrebatamento está completo. Aquele autor é consideravelmente elevado no seu conceito pelo brilhantismo admirável. Você jamais esquecerá aquele livro, e parte do escritor estará sempre com você. Porque você o compreende. Acompanhou a trajetória de seus personagens até ali, e agora sabe. Um tipo de coisa que, indiretamente, às vezes nas entrelinhas, com uma licença poética, ou que causa impacto logo de cara, só passa de escritor para leitor. Aquilo, você sabe… que só leitores entendem.

P.S.: De leitor para leitor, aqui vai uma confissão: filas de espera, lágrimas, soluços, sustos, suspiros, boca aberta olhar perdido… boas gargalhadas. Podemos pensar diferente, ser diferentes, mas, ah, no fundo, não somos todos iguais?!