Nota do resenhista “Tão singular quanto seu proprietário é a livraria onde só um pequeno grupo de clientes aparece. E sempre que aparece é para se enfurnar, junto do proprietário, nos cantos mais obscuros da loja, e apreciar um misterioso conjunto de livros que Clay Jannon foi proibido de ler. Mas Jannon é curioso…”



   Tempo: Para ler de um tiro só no final de semana.


   Finalidade: Para amar ainda mais os livros.


   Restrição: Para quem não gosta de temas contrastantes numa mesma história.


   Princípios ativos: Livros, livraria, tecnologia, nerds, mistério.


 

A Livraria 24 horas do Mr. Penumbra, de Robin Sloan

Vamos combinar que quando se trata de imaginar nós, leitores, somos experts. De terras fantásticas a cidades futuristas, tudo é absorvido com muita facilidade. Livro após livro, o cheiro, a textura, o tamanho, as fontes, a livraria, tudo se torna muito familiar. E, a menos que você já tenha voado numa vassoura ou visitado uma sociedade superdesenvolvida, um livro ainda não lhe foi familiar o bastante. E esse é o principal motivo das cinco estrelas. Eu visitei a Livraria 24h do Mr. Penumbra.

Clay Jannon é um web designer desempregado que, em virtude de uma difícil crise econômica vivida nos Estados Unidos, foi obrigado a baixar (e muito) o seu conceito de “bons empregos” para enfim se deparar com uma vaga de atendente noturno numa livraria 24h administrada por um senhor chamado Mr. Penumbra. O trabalho exige um bom preparo físico, afinal a livraria é vertical, com prateleiras equivalentes a três andares; ser um bom observador, pois cada cliente deve ser minuciosamente descrito no livro caixa; e por último, não ler nenhum livro das estantes.

“(…) é exatamente o tipo de loja que dá vontade de comprar um livro sobre um mago adolescente. É o tipo de loja que faz você querer ser um mago adolescente.”

Mas isso não é um problema quando a livraria é composta, em sua maioria, por livros velhos em capa dura ou tecido e títulos estranhos, dispostos onde Clay chamou de catálogo pré-histórico, a sessão escura próxima as últimas prateleiras e que, vale ressaltar, é a área de maior movimentação do lugar. Não movimentação no sentido de pessoas fazendo filas para adquirir os livros, mas clientes de meia-idade que chegam no meio da madrugada tomando emprestado os exemplares únicos daquela sessão com a mesma empolgação de quem um dia comprou um livro de um mago adolescente a meia-noite.

“Quero dizer, um único cliente é um grande evento, e um único cliente tanto pode aparecer à meia-noite quanto ao meio-dia e meia.”

Assim como eu, você, ou qualquer pessoa com o mínimo de curiosidade, Jannon vai até uma estante e abre um dos livros misteriosos. Códigos. É isso que ele encontra. Páginas e mais páginas de letras organizadas de maneira incompreensível. O que aqueles senhores e senhoras estão fazendo com esses livros no meio da noite? O mistério aumenta quando Clay descobre, a partir de uma projeção 3-D da livraria que mostra em cores diferentes os livros pedidos por cada um desses clientes, que todos os leitores estão seguindo o mesmo caminho que no final formará uma figura com as lombadas. O rosto do fundador.

Clay acaba de desvendar em um dia o que muitas pessoas levaram anos: o Enigma do Fundador. Agora ele é um noviço, o iniciante de uma irmandade com mais de 500 anos que busca em livros codificados o segredo da imortalidade. Mas o atendente cometeu um erro, usar recursos tão comuns hoje é considerado trapaça e uma vida corre o risco de ir parar na fogueira.

“A natureza da imortalidade é um mistério. Mas tudo o que sei sobre escrever e ler me diz que isso é verdade.”

“A Livraria 24h do Mr.Penumbra” é um livro escrito especialmente para nós, leitores apaixonados por livros. Não que os outros não sejam, mas esse cria um laço mais estreito por ser, em grande parte, o que vivemos hoje, o encontro entre o novo e o antigo, entre o que é tecnologia e o que já foi tecnologia de ponta. A história está cheia de referências à internet e a própria sede do Google é um dos cenários da trama, assim como gênios da informática, ao mesmo tempo em que lida com a origem da imprensa, de livros antigos, sociedades secretas e um mistério para ser solucionado no final. Os personagens são cativantes e a amizade entre eles é o que desenvolve a solução. Obviamente, há muito mais nesse livro do que foi possível contar nesses poucos parágrafos. Inclusive, acho que falei demais, como um leitor que mal saiu da atmosfera do livro e pegou o computador para escrever esta resenha e compartilhar tamanha satisfação em ler essa história. Para finalizar, deixo um comentário, por mim reformulado, feito pelo Mr. Penumbra: “Não há nada pior do que um leitor sem curiosidade”.

Resenhado por [Rafael Duarte].

288 páginas, Editora Novo Conceito, publicado em 2013.
*Título Original: Mr. Penumbra’s – 24 hour Bookstore.